segunda-feira, 9 de julho de 2012

O lápis e a borracha

‎"Viver é desenhar sem borracha." A partir dessa frase de Millôr Fernandes a gente pode pensar em uma tela em branco, em um lápis preto, e a criatividade de cada um. A tela ali vazia e ao mesmo tempo cheia de possibilidades é o chamado ao artista para que este invente formas diferentes. A obra está ali parada querendo ser desenhada. E então começam os rabiscos e as formas e a tela se preenche de nuances e emoções. A obra vai se fazendo obra à medida que se desoculta ao artista. Não é algo mítico ou do gênero, mas sim uma entre tantas possibilidades que existe para aquele momento. Terminado o desenho preto e branco pode-se perguntar se há ou não a chance de se usar as cores. Quais cores se complementam àquela obra? São muitas perguntas, poucas respostas e a sensação de que se produz algo novo. Finalizada a tela a obra está ali aberta exposta a todo tipo de olhar; e só passará a ser obra na medida em que as pessoas a vejam, caso contrário ficará ali parada a espera.O que nós fazemos diante do novo? Diante do espanto? Diante de situações que nunca vivemos? Somos então, telas em branco, à espera de nossos rabiscos pessoais. Somos a cada instante convidados a nos lançar no abismo e no vazio das possibilidades. Escolher as cores e formas de nosso caminho e de nossa vida não se mostra como algo simples e fácil de acontecer. Depende de tantas coisas. Assim, o poeta Fernando Pessoa nos diz que “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. O que nos motiva a fazer a travessia? O lápis e a borracha; a tela em branco e as escolhas de cada um. Podemos sim retornar a velhas ideias, mas com sentidos diferentes. Não apagamos o que traçamos, mas resignificamos antigas ilusões e tempos de lembranças. Olhamos para a borracha com saudade dos riscos que cometemos; olhamos para o lápis com a sensação de que podemos traçar novas linhas.