quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Suicídios Exemplares

“Será que a realização da plenitude e absurdo da vida exigem suicídio?” É, para Albert Camus, a única pergunta que deve ser respondida. E ele conclui que o suicídio não é a resposta: deve-se viver, deve-se revoltar. A revolta carrega em si a esperança, a luta é suficiente para tornar o homem pleno.

E as personagens dos contos de Vila-Matas são como o pensamento do argelino colocado em prática. Um tema que pode ser considerado forte, que pode assustar. Mas são contos extremamente delicados e sutis. E só em um dos contos a personagem efetivamente se mata. Nos outros o suicídio é uma idéia, servindo mais como uma promessa do que como algo a realmente ser realizado. Talvez nisso resida o fato de serem exemplares: a pergunta de Camus é respondida não de modo filosófico, mas prático. Alguns até tentam levar a idéia a cabo mas, por um motivo ou outro, sempre protelam sua execução.

“Rosa Schwazer volta a vida” é, creio, o melhor exemplo: a vigia de museu decepciona-se com a vida – percebe e sente o absurdo – durante todo o dia, e pensa em se matar. Ela porém não o faz, sempre encontra um motivo para protelar aquilo que, pensa ela, é inevitável. E continua vivendo, apesar de tudo, e talvez apenas pela promessa de que na próxima oportunidade vai se matar.

Vila-Matas foi feliz nesse tema infeliz. Ele consegue fazer o que se propõe no prefácio: viajar até que se esgotem as nobres opções de morte e levar o leitor a projetar a si mesmo sobre os diversos suicidas que ele ilustra. E mostra que o suicídio não necessariamente é o fim da esperança, mas talvez a sua busca.

VILA-MATAS, Enrique. Suicídios Exemplares. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2009. 1a Edição. 208 páginas. Preço sugerido: R$45,00.

Publicação do blog Meia Palavra por Luciano R. M., é estudante de medicina, mas prefere literatura e arte. Não acredita em médicos que não leram Dostoevski.

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