terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Novo ano

Agradeço a todos que estiveram comigo nesse blog esse ano. E que reflitam sobre o que fizeram de vocês e o que querem para o amanhã. O futuro está sempre ali a nosso alcance, mas sempre dizemos que ele nunca chega. O passado a gente comenta ora com saudade ora com ressentimento e nos esquecemos que nós o fizemos. E o presente, esse hoje intenso e vivido é o que realmente podemos fazer e escolher. Façamos no próximo ano coisas diferentes. A mudança está em cada um de nós! Deixo com vocês esse trecho do poema do Carlos Drummond de Andrade.

"Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Meu homem - Miriam Goldenberg

Na última coluna escrevi sobre um problema que afeta muitas brasileiras: como apresentar o homem com quem elas vivem novas formas de conjugalidade? Como defini-lo, se não há vínculos legais, co-habitação, filhos? Recebi sugestões engraçadas, criativas e inteligentes. Exemplos: marido, esposo, cônjuge, namorado, noivo, namorido, ficante, rolo, marido oficial, marido social, marido informal, parceiro, companheiro, "significant other", consorte, com-sorte, querido, amado, amante, afeto, amigo, amigo predileto, amor da minha vida, UE (união estável), gato, caso, colega de viagem, macho, dono do meu coração, vizinho de cama, amizade colorida, compromisso enrolado, compromisso sério, o cara, sei lá, tanto faz.

Uma das mais "votadas" foi: "Este é o meu amor". A Sandra escreveu: "Achei muito divertido o seu texto, porque é uma situação muito atual, talvez pela falta de necessidade de se ter um relacionamento que resulte em certa dependência. As mulheres têm ficado financeiramente independentes e isso se reflete no setor afetivo".

E essa leitora continua: "Ainda é difícil classificar de forma que todo mundo entenda esse novo tipo de relacionamento. Só sei que o meu já dura cinco anos. Me lembro como o apresentei para minha mãe: -Mãe, esse é o Jorge. Ela perguntou se era meu namorado, e eu: -Não, mãe, é o meu amor!. E ainda o apresento assim". Entretanto, a sugestão campeã absoluta foi: "Este é o meu homem".

A Angélica disse: "Mirian, eu adorei seu texto. Também tenho essa dificuldade de apresentação. Para ele, meu amor, eu digo que ele é meu homem! Eu fico entre essas duas definições: esse é meu homem, esse é meu amor. Mas, dependendo das circunstâncias, eu vou mudando: esse é meu gato, meu amado, meu namorado. Mas, lá no fundinho, eu continuo querendo uma única coisa: que ele continue sendo meu homem, meu amor, minha paixão".

Por fim, fica a proposta da Lélia, que fez uma enquete com dezenas de amigos: "Sabe Mirian, eu acho que deveríamos ter a coragem de dizer "este é o meu homem". Vamos derrubar o preconceito. Vamos enterrar a ideia de achar que falar "meu homem" é vulgar. Se homem pode dizer "esta é a minha mulher", nós também podemos dizer "este é o meu homem". Ponha em prática a ideia. Seja a precursora. Vamos pôr fim a esse tabu. Lance a campanha!". Então, queridos leitores e leitoras, vamos aceitar o desafio da Lélia?

MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "Intimidade"(Record). Publicação na Folha de S. Paulo no caderno Folha Equilíbrio em 14/12/2010

Suicídios Exemplares

“Será que a realização da plenitude e absurdo da vida exigem suicídio?” É, para Albert Camus, a única pergunta que deve ser respondida. E ele conclui que o suicídio não é a resposta: deve-se viver, deve-se revoltar. A revolta carrega em si a esperança, a luta é suficiente para tornar o homem pleno.

E as personagens dos contos de Vila-Matas são como o pensamento do argelino colocado em prática. Um tema que pode ser considerado forte, que pode assustar. Mas são contos extremamente delicados e sutis. E só em um dos contos a personagem efetivamente se mata. Nos outros o suicídio é uma idéia, servindo mais como uma promessa do que como algo a realmente ser realizado. Talvez nisso resida o fato de serem exemplares: a pergunta de Camus é respondida não de modo filosófico, mas prático. Alguns até tentam levar a idéia a cabo mas, por um motivo ou outro, sempre protelam sua execução.

“Rosa Schwazer volta a vida” é, creio, o melhor exemplo: a vigia de museu decepciona-se com a vida – percebe e sente o absurdo – durante todo o dia, e pensa em se matar. Ela porém não o faz, sempre encontra um motivo para protelar aquilo que, pensa ela, é inevitável. E continua vivendo, apesar de tudo, e talvez apenas pela promessa de que na próxima oportunidade vai se matar.

Vila-Matas foi feliz nesse tema infeliz. Ele consegue fazer o que se propõe no prefácio: viajar até que se esgotem as nobres opções de morte e levar o leitor a projetar a si mesmo sobre os diversos suicidas que ele ilustra. E mostra que o suicídio não necessariamente é o fim da esperança, mas talvez a sua busca.

VILA-MATAS, Enrique. Suicídios Exemplares. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2009. 1a Edição. 208 páginas. Preço sugerido: R$45,00.

Publicação do blog Meia Palavra por Luciano R. M., é estudante de medicina, mas prefere literatura e arte. Não acredita em médicos que não leram Dostoevski.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Envolvimento Social

Não tem como deixar de escrever sobre as cenas de guerrilha urbana no Rio de Janeiro que assistimos em tempo real. Pensar que há trinta anos as pessoas daquela comunidade viviam sob regime de exceção privadas de condições básicas e descartadas pelo poder público. Como é fácil para a sociedade deixar à margem o que está fora do alcance de seus olhos. Educar é difícil, explicar o que vimos mais ainda. O que fazemos nós diante das imagens? Qual o papel de cada um de nós na desconstrução desse modelo social? Sair da teoria à prática pode ser o começo; pois sinaliza um esforço em comum em prol do objetivo coletivo de igualdade social, segurança e paz.

Educação sempre é o caminho para a igualdade de oportunidades e desenvolvimento do senso crítico. Não se restringe à escola e à família o a função de orientação aos jovens; arte e esporte devem ter papel de destaque como complementação da educação formal. O jovem deve ser protagonista de sua própria história. A construção é lenta, já que há um abismo social pré-existente, mas a criança de hoje é o país de amanhã.