domingo, 1 de agosto de 2010

Tecendo a manhã

“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.”

(João Cabral de Melo Neto)

Escolhi esse trecho do poema “Tecendo a manhã” do modernista João Cabral de Melo Neto porque cabe de forma adequada na abertura do blog.
João Cabral centra-se na coisa em si, e desta forma, no concreto, no objetivo. Começa com a paráfrase do provérbio “uma andorinha só não faz verão” indicando que o cantar do galo tecendo a manhã é em princípio o cantar do próprio poeta e sendo assim de todos nós. O homem é parte do mundo. Somos como artesãos que constroem lentamente suas peças. Nosso caminho é esculpido no esforço individual da elaboração e montagem das etapas. É então a antítese entre individual e coletivo.
O poema também fala sobre o confronto entre o tempo presente e o tempo futuro. Os galos se unem e convocam a manhã (futuro); e podemos pensar então, que futuro é o que está aí; não é algo distante, e sim, o amanhã. A construção se dá no tecer os fios dos objetivos em busca da nova manhã.
O artista (criador) aqui representado pelo “galo” produz a obra “a manhã”. E a junção de todos os galos em busca da obra final – “se encorpando em tela” ganha espaço e se torna individual. Assim, o criador deixa marca na sua criação, como nossa caminhada em busca do amanhã.

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